dojeitoquefala

16.11.09

[ caríssimo ]

no meio de toda a atribulação cotidiana um pensamento me traz até aqui pra escrever pra você e assim ficar mais perto, achar as portas e janelas que desfazem os obstáculos e diminuem as distâncias. sento numa mesa à beira-mar e imagino como era antes dessas pessoas todas, desses bares espalhando cada vez mais mesas e cadeiras, desses carros com sons estrondantes - destoantes do mar verde-azul com ondas poucas e barcos à vela... uma praia imaculada. onde haverá? reflito mais um pouco, e: pra que haverá? como sabê-la? e penso em você e percebo a inutilidade do imaculado. essa bobagem de querer descobrir o que ninguém nunca soube, quando o bom é exatamente sabê-lo. a mácula é que nos une, uma pessoa a outra pessoa e meus pés a essa areia fina e meu corpo inteiro a essa água morna...

lastimo sua falta, seria bom se pudesse ver quanto sol amarelo cabe naquela faixa de água entre a ponta da direita e as pedras da esquerda, e se pudesse me puxar pela cintura e me agarrar e junto comigo macular aquela beleza com nossa beleza, que mácula de repente é isso, é fim de solidão, é deixar-se juntar por algum tempo ou todo o tempo...


parecia um domingo bom, de um tempo em que havia. e arrastou-se até hoje, com as horas pulando de três em três. abandonar-se pode ser uma delícia.

[ L. ]

8.11.09

[ como quem partiu ]

tem esses dias que não há um lugar certo que lhe caiba? pra mim tem. um cativeiro sufocante. uma cela claustrofóbica. uma rua sem saída. entendeu? isso. parece isso.

tinha caminhado a tarde inteira debaixo de sol, achando a luz muito bonita mas muito intensa, fechando os olhos pra poder ver, e com uma sandália do pé direito faltando um pedaço da sola, o que me fazia mancar sem perceber, só notei quando comecei a sentir as dores nas costas. encostei numa parede qualquer - uma barraca que vendia côco, acho - e fiquei logo descalça, antes de ser pega de supresa. a pele meio queimada, o humor meio alterado, o mundo já meio pequeno.

apertada nas possibilidades poucas, fui andando até a beira do mar, e aquilo deve ter sido pânico. não é assim? as ondas eram minúsculas, e ainda assim pareciam saltar por cima de mim, a areia não me deixava correr e minha mente queria me enganar, fingindo que era um sonho daqueles que parece real, mas era real que parecia sonho que parece real. e ao mesmo tempo, não era real! pânico, não é? caí sentada e acho que acordei quando a onda realmente chegou em mim, molhando pés, pernas, o short e as mãos. fiquei lá, sentindo o ir e vir, e a respiração foi se juntando ao ritmo da água e acalmando...

não é divertido estar num mundo assim feito um catre. não é real, mas que importa se parece que é? pensamento divergente, ação de hormônios loucos, crise nas infinitas terras de minha cabeça, cansaço domingueiro, alguma das opções ou todas juntas?


unhappiness happens, did you know?

[ L. ]

19.10.09

[ dormi, sonhei ]

essa casa já pertenceu a outras pessoas. agenor e amaralina, antonio de luisa, anas várias, catarina, lila, ele. ela. eu. passar por aqui não é necessariamente morar, e ter passado não é exatamente ter sumido. é feito memória, a gente às vezes pensa que perdeu mas nos momentos mais inesperados volta. sonhei com você. pensei em nós dois. lembrei daquele dia. do nada, assim. tem uma ou outra coisa que a gente apenas sente que se foi, porque foi mesmo muito pontual e pôde sumir - não sem deixar vestígios. pelo menos comigo é assim: me peguei dizendo coisas que há muito não dizia, senti que passou, que a demora se deu por algum motivo que me escapa, por mais que minhas análises sólidas pareçam corretas e escavoucadas de lacunas lógicas. nas minhas analogias corriqueiras, virei a curva e a queda acabou, faz tempo que foi-se e que o caminho transcorre comme d'habitude, sem paradas, sem descanso. e quando é que tem intervalo? eu mesma respondo: nunca. não importa o quanto a gente peça e o quanto espere, queira e até tenha a sensação de vazio, de estagnação, não há. tempo amigo, corre junto, todos na mesma velocidade, ainda que por vezes assim, como que descompassados. impressão, viu? todos juntos.

passaram, não sumiram. recordo, não chamo de volta. uns mais e outros hoje menos queridos, cada um teve seu lugar, ainda que de vez em quando só pra me lembrar que não, que nunca novamente, por favor. obrigada. até mais. até (nunca) mais. até (logo) mais. até daqui a 11 anos, até amanhã, estou voltando.


adoro o ritmo das coisas, verdade seja dita.

[ L. ]

2.10.09

[ para uma menina (com) uma flor ]

uma voz soava permanente pra dentro da cabeça e de dentro pra outro canto que não pra fora, circulando como se pudesse sair pelos olhos, como se fosse um perfume, como se fosse sem ser. ela dizia coisas miúdas misturadas com risadas gostosas e um tom de embaraço curioso. porque na verdade não tinha embaraço algum, cada miudeza dita era certeira e cheia de picardia, enchendo de charme os intervalos de uma palavra pra outra. enquanto ouço o que me diz a voz traço a paisagem onde ela habita, e vendo através de outros olhos acho tudo lindo, toda curva, todo sol, toda rua, todo mar todoazul. toda ela. a voz me diz de cuidado, de desejo, de impulso. e me dá de presente esse pedaço enorme de si, que guardo sem ter como, feito luz, feito instante, na lembrança e no peito apertado de saudade.


ganhei tão lindo presente que fiquei besta. adoro o equilíbrio dessa vida todalouca: quando o dia é de silêncio triste, a noite vem de lucyinthesky, sorrindo...

[ L. ]

6.9.09

[ tipo um twit ]

em poucas palavras, o fenômeno da solidão é surpreendente, a cada vez. eu busco, tu buscas mas, que droga, cada um só encontra sozinho.


um twit, de fato. só me falta o canto certo pra encostar a viola, esticar as pernas e cochilar no sofá.

[ L. ]

1.9.09

[ um quintal e uma janela ]

entrei na sala vazia e relutei em abrir os olhos, tinha medo de não entender aquele lugar, de não reconhecer.

sempre foi assim, toda vez que tinha que me mudar era um drama: entrar pé-ante-pé, escutar o que está em volta, sentir a energia do lugar, abrir as torneiras, apertar as descargas, acender as luzes, abrir e fechar portas e janelas... até aí nada de tão diferente, quem não testa o lugar é que erra e se arrisca. mas no meu caso ainda tinha esse porém de me ver. é, tenho que me ver, tenho que conseguir me enxergar ali, morando ali, vivendo, armando uma rede, fazendo uma comida, recebendo as pessoas, ligando a televisão, dormindo no sofá, acordando no meio da noite pra tomar água. esquecendo a toalha ou o papel, varrendo, lavando, pintando a parede horrorosa da sala...

é, acho que me vejo ali. gosto do espaço pra me mexer.


vou convidar, mas será que vou receber? cheiro de comida pronta, tapetinho no chão, almofada na cabeça... vai ficar gostoso, pode vir!

[ L. ]

25.8.09

[ romance ]

clementine, ma chérie...

o inverno por aqui já acabou, acredita? dias quentes, sol, mar verde e umas chuvas esparsas só pra gente se mover mais rápido, só pra espairecer, só pro céu fazer esse charme com nuvens brancas e cinzas contrastando com as colores todas. as castanholeiras estão riquíssimas, queria que você visse! são majestosas, enormes, folhas feito grandessíssimos leques chineses que começam a avermelhar e depois a amarelar, fazendo uma dança mui caliente nesse tempo de contrastes.

hoje conheci uma portuguesa com um sotaque gostosérrimo - perdoe, estou superlativa ao cubo. infelizmente ela não pôde me ajudar, mas foi tão simpática... só pra citar mais uma proparoxítona de que gosto tanto. sabe como é quando dá uma dó de não precisar mais falar com a pessoa? ó, cristina, talvez aprecies um chá, queres? mas não sou tão assim, essa seria você, possivelmente.

e ontem, praticamente ontem, conheci a argentina. uma terra muito boa, que nem a recessão derruba. lembro que você gosta muito, não? pois eu também passo a gostar, uma terra em que ainda se pode acreditar, uma que quando você menos espera surge feito ilha no horizonte náufrago: inevitável agarrar-se com ela! agarrei-me um tanto e de fato parecia que me salvava, depois te conto como se deu. muito boa, a argentina, penso em voltar mais vezes ou pra ficar mais tempo - foi uma visita tão rápida... parecia que umas tantas horas eram uns tantos minutos, não me cansava nada, nada.

clem, você me faz uma falta danada. sempre, mas vez em quando é tão apertada, com quem vou procurar nova morada? com quem, arrumar as estantes e decorar as paredes? com quem sentar no fim do dia e tomar um chá gelado sentindo falta de um desenho novo pra preencher aquele espaço? nem me fale que nunca fizemos isso, que falta de delicadeza. o que digo é que sempre há a chance de fazermos, o que nos falta é uma quantidade menor de quilômetros a separar o desejo da prática. muita falta, muita.

olha, recebi mensagens estranhas de nãosesabeonde e detesto pensar em nãosesabequem, é tão pouco e covarde, tão inútil e tolo, não sei nem o que fazer. supor é um risco e um dispêndio qualquer de energia não cabe nos planos de minha vida nesse momento. e viva as castanholeiras!

querida clementine, adoro tanto dizer esse seu nome! pois bem, clementine meu bem: vou-me. dormir é um exercício que tenho que praticar um mais, percebo. escreverei novamente e em breve, tenho certeza de que terei novidades lindas - as folhas terão desabado em chuva de grandes gotas amarelas e vermelhas, os dias terminarão em festa como o pôr-do-sol que vi hoje, eu e todo o mundo extasiado com as nuances de um lado a outro da abóbada...

vou-me, que senão não paro!

te adoro, teodora. um beijo muito grande.


de quando cartas faziam meus dias, um da série 'veja lá se me entende'.

[ L. ]

Marcadores: